sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O processo de criação de estampas

Bom, dia, pessoal!!!! Para quem ainda não conhece essa “figurinha fácil” aqui no blog, meu convidado de hoje é um querido amigo que tem se destacado cada vez mais na área de design em que atua e para a qual possui um talento incrível! Ele já apareceu por aqui algumas vezes mostrando suas criações, é presença garantida nas festinhas lá em casa e eu o considero um dos TOP 3 designers com quem trabalhei. Sua especialidade é o DESIGN DE SUPERFÍCIE. Atualmente trabalhando como designer freelancer e professor dos cursos de graduação e pós-graduação do SENAI-CETIQT, no Rio de Janeiro, Wagner Campelo também ministra cursos e workshops no UNIVERSO DA COR em São Paulo.

Sempre leio os relatos do meu amigo, mas às vezes algum se destaca e eu peço permissão para reproduzi-lo. É o caso do post de hoje, no qual o Wagner apresenta o passo a passo do processo de criação de uma das estampas mais bonitas que já vi. É praticamente uma aula cheia de detalhes e dicas na qual ele explora várias possibilidades criativas a partir de um mesmo desenho. Vamos conferir?

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PROCESSO CRIATIVO | REDBERRIES

Quem acompanha este blog deve saber que já publiquei aqui alguns processos criativos que adotei na elaboração de determinadas estampas. Embora estes posts sejam sempre muito trabalhosos, desde que me tornei professor tenho achado interessante a ideia de compartilhar informações relacionadas a este tema. Evidentemente, minha intenção não é propor um “modelo” a ser seguido, mas apenas apresentar etapas de um processo que, creio eu, poderá inspirar e estimular aos interessados no assunto a buscarem seus próprios métodos.

O ponto de partida para a elaboração da estampa REDBERRIES foi um exercício que desenvolvi quando fazia minha pós-graduação em 2010. A atividade consistia em construir um rapport em meio-salto por intermédio das dobraduras de um módulo em papel. Abaixo, o resultado do exercício mostrando o desenho que fiz à mão livre com grafite. Os dois traços em vermelho indicam os pontos em que os módulos adjacentes (laterais) deveriam estar alinhados no sentido vertical (base e topo) a fim de que a estampa se completasse.

redberries | wagner campelo

Na próxima imagem é possível observar como dei continuidade ao desenho, que começou a ser feito inicialmente no centro do papel, prolongando os motivos por sobre as extremidades laterais unidas na diagonal e alinhadas aos traços em vermelho.

redberries | wagner campelo

Em relação à vertical a continuidade dos motivos se deu do modo convencional, ou seja, unindo o topo e a base e prolongando o desenho sobre a junção das extremidades do papel — como pode ser visto a seguir.

redberries | wagner campelo

Particularmente, nunca usei esse método para determinar o rapport, nem mesmo no tempo em que os computadores ainda não existam e eu precisava fazer tudo à mão. O maior “problema” no caso de usar este sistema para estabelecer o rapport é que não é possível ver o restante do desenho quando se está completando os motivos nas extremidades dobradas — e isso pode causar resultados desfavoráveis, já que não se tem uma visão do todo. Voltado ao exercício, depois de ter fechado o rapport era preciso escaneá-lo e, no Photoshop, não só simular sua repetição bem como acrescentar cor ao desenho. Para facilitar o escaneamento, uma vez que eu havia feito o desenho à lápis, refiz todos os motivos usando caneta hidrocor preta sobre papel vegetal. Aproveitei para fazer pequenos ajustes em relação aos traços do desenho original.

redberries | wagner campelo

No Photoshop, usei o filtro Estampa (Stamp) para obter um “traço” limpo, livre dos indesejáveis tons de cinza que acabam surgindo no escaneamento. Deste modo é mais rápido e prático isolar os elementos e o fundo, permitindo maior liberdade em termos estéticos.

redberries | wagner campelo

Com o “traço” destacado do fundo, ajustei o rapport e acrescentei cor aos motivos. Abaixo, o resultado do exercício finalizado.

redberries | wagner campelo

Como se tratava apenas de um exercício, na época, não me preocupei muito em dar um “acabamento especial” à estampa que, para mim, já havia cumprido seu propósito. Só recentemente (em 2013), achei que poderia valer à pena retomar o desenho antigo e tentar deixá-lo mais elaborado, incrementando a padronagem a fim de que ela ficasse mais atrativa. Como eu tinha os arquivos em Photoshop, achei que poderia usá-los como base para um redesenho da estampa. Assim, imprimi em papel A4 somente os contornos do desenho destacando em preto os motivos (inteiros) que faziam parte do rapport em meio-salto — como mostrado a seguir.

redberries | wagner campelo

Com o auxílio da mesa-de-luz, usando nanquim e um pincel bem fino, refiz o desenho pintando-o sobre papel Canson.

redberries | wagner campelo

Neste caso, a qualidade da tinta não era muito importante. Assim, acabei usando um nanquim tão barato quanto “aguado”, que comprei acreditando ter feito um bom negócio. A “vantagem” é que por conta do nanquim diluído foi possível obter certas nuances nos contornos — das quais eu pretendia tirar partido mais tarde. Abaixo, detalhes do traço do desenho. Apesar de não ter extrema habilidade com pincéis, gosto do resultado irregular e fluido que as pinceladas proporcionam.

redberries | wagner campelo

Gostei tanto do resultado que, como já estava com “a mão na massa”, resolvi pintar uma nova versão, diferente da anterior, desta vez usando aquarela. No novo redesenho aboli os contornos, procurando dar ênfase às regiões correspondentes aos preenchimentos. Usei duas cores para ficar mais fácil, posteriormente, isolar os frutinhos dos ramos com folhas.

redberries | wagner campelo

Como não domino a técnica da aquarela, não tive a pretensão de explorá-la em sua plenitude. Na verdade, quis apenas aproveitar um pouco das nuances proporcionadas pelo acúmulo de tinta (cor) em alguns pontos do desenho. Aliás, usei uma concentração bem mais densa de tinta do que deveria, caso quisesse realmente uma aquarela autêntica. Também não me preocupei com a escolha das cores: usei dois tons bem distintos somente para destacar os grupos de elementos. A seguir, detalhes do redesenho “aquarelado”.

redberries | wagner campelo

Depois de escanear o primeiro redesenho, comecei a fazer algumas modificações no Photoshop. Como sempre, nesta fase inicial eu nunca sei exatamente que rumos tomarão as alterações que pretendo aplicar, e faço alguns testes para ver os resultados que vou obtendo. Quase nunca eu acerto de primeira, mas como já estou acostumado com as tentativas e erros (e também acertos, claro) não me deixo abater facilmente. Um procedimento, porém, me parece óbvio e eu sempre inicio por ele: a separação dos elementos em relação ao fundo. Como já disse, isso dá mais flexibilidade no manejo dos motivos, uma vez que eles estarão soltos da base.

redberries | wagner campelo

No caso deste redesenho, como eu pretendia explorar as nuances do “nanquim barato” não usei o filtro Estampa (Stamp) para conseguir um “traço” limpo. Depois de fazer pequenos ajustes de brilho e contraste, utilizando a ferramenta Varinha Mágica (Magic Wand), cliquei no branco do fundo tendo habilitado a opçãoAdjacente (Contiguous) a fim de selecionar e deletar apenas o fundo, preservando os preenchimentos (também em branco) das folhas — como pode ser visto acima.

redberries | wagner campelo

Em seguida, selecionei apenas os frutinhos e dupliquei-os numa nova camada (Ctrl C + Ctrl V). Fiz mais uma duplicata desta camada e pintei-a de vermelho sólido. Deixei reservada a camada dos frutinhos com a cor original, deletando-os da camada dos ramos para evitar que aparecessem caso eu precisasse mudar algum dos coloridos de lugar.

redberries | wagner campelo

Selecionei somente os preenchimentos em branco das folhas e também os copiei numa nova camada. Pintei-os como uma cor qualquer apenas para que tivessem destaque do fundo — como mostrado acima.

redberries | wagner campelo

A ausência de fundo no Photoshop (representada pelo quadriculado branco e cinza) sempre me incomoda bastante no momento de trabalhar. Assim, criei um fundo branco apenas para que a visualização dos elementos ficasse melhor. Aproveitei para reduzir um pouco a área dos preenchimentos das folhas, pois achei que elas poderiam ficar mais “leves” na composição. Para tanto, com a camada das folhas selecionada, cliquei em Carregar Seleção (Load Selection) >Modificar (Modify) > Contração (Contract) e reduzi as bordas em 5 pixels. Depois cliquei em Inverter (Invert) e deletei a seleção. Isso fez com que todos os preenchimentos das folhas ficassem 5 pixels mais estreitos, criando um fio (espaço) em relação aos contornos. Preciso dizer que a resolução do arquivo no qual eu estava trabalhando era de 600dpi. Como eu não sabia exatamente o que faria com a estampa optei pela resolução com o dobro da ideal para ter um desenho originalmente grande, uma vez que eu não poderia ampliá-lo depois de finalizado.

redberries | wagner campelo

Somente depois de ter os motivos separados uns dos outros e também do fundo, iniciei as alterações propriamente ditas. Comecei aplicando o Mapa de Degradê(Gradient Map) na camada dos contornos. Por conta do nanquim aguado e das nuances de preto obtidas com ele, os degradês se distribuíram irregularmente, tornando os motivos mais ricos em termos cromáticos — como visto acima.

redberries | wagner campelo

Colori a camada do fundo com uma cor escura a fim de deixar os motivos mais “luminosos” e conferir mais dramaticidade à composição. Uma cor de fundo escura quase sempre deixa a estampa mais intensa.

redberries | wagner campelo

Selecionei a camada do preenchimento das folhas, alterei sua cor para uma tonalidade mais rosada e apliquei o filtro Esponja (Sponge) para dar um aspecto “texturizado” à cor originalmente sólida.

redberries | wagner campelo

Como achei que o fundo ainda estava demasiado chapado, fiz uma duplicada do preenchimento das folhas, girei-a a 180 graus e reduzi sua opacidade para 40%, passando-a para a camada imediatamente superior ao fundo. Repeti o mesmo procedimento com a camada dos frutinhos. Esse recurso fez com que uma ilusão de profundidade fosse obtida, além de deixar o fundo menos “duro”.

redberries | wagner campelo

Acima, um detalhe do resultado final das alterações. Aproveitei a camada dos frutinhos em preto e dei alguma textura aos coloridos em vermelho sobrepondo a primeira duplicata e reduzindo sua opacidade para 10%. Por último, converti o rapport em meio-salto para linear a fim de permitir a impressão digital. Reduzi as dimensões e enviei a estampa para o Panólatras. Abaixo, a estampa impressa em microfibra.

redberries | wagner campelo

Com o outro redesenho (o bicolor), procedi de forma semelhante, mas sem o uso de tantos filtros. Basicamente, alterei as cores dos motivos, preservando as nuances do aquarelado original. Fiz algumas variantes de cor e as apliquei em produtos da Society6 — como pode ser visto abaixo.

©wagner campelo

Versão do segundo redesenho em tons de dourado (ocre) e azul-cobalto.

wagner campelo | society6

A mesma versão da estampa aplicada em capa de laptop.

©wagner campelo

Variante de cor em tons de vermelho e azul-claro.

wagner campelo | society6

A mesma versão da estampa aplicada em cartão (papelaria).

©wagner campelo

Variante em tons de turquesa e laranja.

wagner campelo | society6

A mesma versão da estampa aplicada em capa de celular.

wagner campelo | society6

A versão do primeiro redesenho aplicada em quadro com moldura.

Eu costumo dizer aos meus alunos que mesmo um exercício aparentemente simples, quando bem retrabalhado pode proporcionar atrativos resultados estéticos. Nem sempre as ideias de como reaproveitar os desenhos originais vão surgir de imediato, mas se eles forem devidamente arquivados, poderão ser resgatados e explorados de outras formas, tirando partido de novas possibilidades criativas. De certo modo, creio que o post de hoje não deixa de ser a comprovação do que vivo dizendo.

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Não é interessantíssimo acompanhar esse processo de criação desde o comecinho? E é mais legal ainda poder conferir os resultados impressos em tecido e em outros objetos compostos por diferentes materiais.

Vou contar pra vocês que eu e minha amiga Mari ganhamos de presente do Wagner uma aula particular sobre estampas fotográficas! Adoramos e foi uma delícia testar várias combinações com os rapports que criamos. O resultado nos agradou bastante e deixou um gostinho de “quero mais”. Esses meses tem sido muito agitados e, infelizmente, não consegui aplicar os conhecimentos que adquiri em novas estampas, o que pretendo fazer assim que a correria do dia a dia der uma trégua.

Waguito, obrigada pela aula maravilhosa e por me permitir reproduzir esse post completíssimo!

Para conhecer melhor o trabalho do Wagner, basta acessar o seguinte link:

http://padronagens.wordpress.com/

Aproveitando a oportunidade, gostaria de convidar vocês a participarem do sorteio de três cangas com design exclusivo do meu amigo. Basta deixar um comentário no seguinte post e cruzar os dedos:

http://padronagens.wordpress.com/2013/09/08/cangas-bali-blue/

Um grande beijo pra todos com votos de um final de semana bem criativo e BOA SORTE!

Bonfa-ass

13 comentários:

Flávia disse... [Responder comentário]

Fantástico!Adorei esta aula.Sou fã das estamas do Wagner,tudo muito colorido e elegante.
Beijos e bom fim de semana para vcs!

Unknown disse... [Responder comentário]

A gente não tem noção o trabalho que dá uma atividade dessas. Muito lindo! Mais lindo ainda será eu desfilando com uma canga dessas pelas praias do sul!! rsrsrs

Ana Benetti
apbenetti@gmail.com

sysco disse... [Responder comentário]

Esplendido!Felicidades,que Deus abençoe seus dons!
Eliete

Lívia Carolina disse... [Responder comentário]

Sempre fiquei curiosa pra saber como eram feitas as estampas...amei a matéria!!

Beijos

Vivian Ignacio disse... [Responder comentário]

Amei, não imaginei que uma base tão simples de desenho poderia virar estampas tão lindas! parabéns pela criatividade!!!

padronagens disse... [Responder comentário]

Obrigado pela divulgação, Bonfinha!
Beijo,
Wagner.

Novas de Danone disse... [Responder comentário]

Talento, parabéns!

Aline Cabral (ANINE) disse... [Responder comentário]

Genial!!!!!!!!

Rebeca Silva disse... [Responder comentário]

Olá Bonfa Lindo seu trabalho. Acompanho sempre seu blog e inspirado nele realizei um jantar romântico, gostaria de mostrar no teu blog. Posso te enviar as fotos e a minha historia. Meu Email é bekasilva22@gmail.com grata

Rebeca Silva disse... [Responder comentário]

Olá Bonfa sou fã do seu blog. inspirada em você REALIZEI um jantar romantico. gostaria de te enviar fotos e a historia do jantar. Posso??

Maria Amélia disse... [Responder comentário]

Muito interessante. Adoraria fazer o curso de estampas e sempre tive curiosidade de saber mais sobre o processo criativo. Valeu!! bjs

Katia Bonfadini disse... [Responder comentário]

@Rebeca SilvaOi, Rebeca!!!! Claro, pode mandar sim, vou adorar! Meu e-mail é katiabonfadini@gmail.com. Um super beijo!

Fê Dutra disse... [Responder comentário]

Adoro a possibilidade de acompanhar o processo criativo de pessoas que sabem o que faz e faz com prazer.
Babei ao ler o post e ver o quanto dá trabalho, mas fica um encanto.
Parabéns pra vocês por nos mostrarem esse universo impensável de trabalho, para pessoas leigas no assunto como eu.
Fernanda da Casa da Dona Santa

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