segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Resumão das férias na Índia – Parte 4: os “templos eróticos” de Khajuraho

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O trem que pegamos em Agra atrasou uma hora, o que é bastante comum na Índia. Percebemos uma movimentação no vagão e entendemos que havíamos chegado a Khajuraho, embora ninguém tivesse feito um aviso oficial. Isso não existe por lá, a gente tem que ficar atento e se virar, rs!

Como viajaríamos novamente de trem naquele mesmo dia à noite, pagamos parte da diária do Hotel Harmony para poder tomar um banho e trocar de roupa antes de partir. Deixamos nossa bagagem no hotel e seguimos para a principal atração da cidade, o complexo de templos de Khajuraho.

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Khajuraho fica fora da rota entre Agra, nosso destino anterior, e Varanasi, nosso destino seguinte, mas esse conjunto de templos faz qualquer desvio valer muito a pena! Antes de viajar, lemos alguns relatos sugerindo o contrário, mas decidimos conferir mesmo assim. Decisão acertadíssima!!!!  Khajuraho nos impressionou demais! Adoro entalhes ricos em detalhes e minúncias e foi exatamente o que encontramos por lá!

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Khajuraho é atualmente um dos principais destinos turísticos do país e seus templos medievais atiçam a curiosidade dos visitantes por causa das esculturas eróticas que lembram as complicadas e criativas posições do Kama Sutra. Entretanto, ao contrário do que se pensa, os elementos eróticos aparecem em apenas 10% das esculturas que representam cenas de sexo e orgias. Os restantes 90% representam situações da vida social e cenas da vida cotidiana.

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Casal indiano que pediu pra tirar uma foto com a gente

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O conjunto de templos foi construído ao longo de 100 anos, entre 950 e 1050. Na época áurea da cidade, contavam-se mais de 80 templos jainistas e hindus, dos quais apenas 22 se encontram em razoável estado de conservação, espalhados numa área de cerca de 21 km².* O complexo foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco.

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As esculturas são interessantíssimas e passamos várias horas circulando a parte externa dos templos observando as figuras com atenção. Estávamos encantados com tanta beleza, tanto talento e tanta história! Reparem que o minuncioso trabalho na pedra se estende até o topo dos templos e há detalhes surpreendentes mesmo naqueles lugares que a vista não alcança. É simplesmente sensacional!

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Detalhes das esculturas dos templos de Khajuraho

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Detalhes das esculturas dos templos de Khajuraho

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Detalhes das esculturas dos templos de Khajuraho

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Depois de ver tantos entalhes eróticos, fiquei curiosa pra saber o  motivo pelo qual os indianos, hoje em dia tão pudicos e conservadores, criaram templos com imagens tão explícitas.

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Pesquisando para esse post, descobri que não existe um consenso sobre essa questão. Uma corrente de pensamento defende que a dinastia Chandela, que dominou essa região da Índia por quase 200 anos, era praticante do sexo tântrico. Outros especialistas afirmam que, como não existem esculturas de conteúdo erótico no interior dos templos, o fato delas existirem somente na parte externa significa que os fiéis devem deixar os desejos carnais do lado de fora. Ou então, seu objetivo seria enfatizar a necessidade de vivenciar e expressar a energia sexual para que os fiéis estejam limpos por dentro. Por último, existe a teoria de que as esculturas seriam um tributo à fertilidade.

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A única certeza é que os templos de Khajuraho não tem nada a ver com o famoso Kama Sutra, livro que foi escrito alguns milhares de anos antes. Apesar das esculturas eróticas e das posições sexuais acrobáticas, os entalhes não são um manual de sexo nem seguem a filosofia do autor do livro.

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Os maiores e mais monumentais templos estão no setor oeste e foram esses que visitamos primeiro. Santuários como Lakshmana (dedicado a Vishnu e talvez o mais belo da região), Varaha, Kandariya Mahadeva (o maior de todos, construído para Shiva) e Matangeshwara são o ponto alto da vista a Khajuraho.*

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Essa foto espontânea foi uma das mais legais da viagem! Vejam a indiana lá atrás imitando a pose do Marcelo! Só reparei nisso quando fui conferir a imagem na minha câmera. Como de costume, encontramos muitos indianos simpáticos e sorridentes em Khajuraho, e quando o grupo que estava no interior do templo desceu, nos pediram pra tirar algumas fotos com eles.

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Muitos cliques com turistas indianos

Conforme o Marcelo escreveu em seu relato, “Durante a visita, conhecemos um casal mais velho de indianos que estava viajando de férias por lá. Como eles falavam inglês com desenvoltura (a maioria expressiva das pessoas locais com que conversamos antes, geralmente em meio a fotografias, não falava muito, ou não falava inglês tão bem), foi talvez a primeira conversa mais prolongada (e descompromissada) com indianos que tivemos na viagem”.

Não tiramos fotos com esse casal, mas realmente tivemos uma conversa bastante agradável que me deu muita vontade de conhecer melhor alguns indianos, já que a maioria do pessoal que vinha puxar papo com a gente normalmente era vendedor, guia ou charlatão.

Continuando com o texto do Marcelo, “Uma coisa que praticamente todos recitavam quando falávamos que éramos do Brasil é a clássica música "Aquarela do Brasil" (Brasil, meu Brasil brasileiro...."). Impressionante como vários sabiam! Fossem turistas indianos ou pré-scams (os malandros que querem lhe vender algo ou lhe levar para a loja ou agência deles), muitos recitaram essa música. Além disso, claro, havia constante referência ao futebol. Só que as referências ainda são a craques aposentados, como o Ronaldo, ou a craques “aposentados em atividade”, como Ronaldinho (o gaúcho). Ou ao Pelé. Até mesmo Romário (menos comum). Raríssimos eram os que sabiam da existência do Neymar. O casal com quem conversamos fez referência à música, a Pelé e ao Ronaldo”.

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Detalhes impressionantes com algumas marcas de restauração

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O interior dos templos é bem escuro e, com base em sugestões que recebemos, levamos uma lanterna para iluminar as esculturas. O segurança de um dos templos nos chamou a atenção, mas em outro templo, a menina que tomava conta do espaço usou uma lanterna para mostrar algumas imagens, o que nos deixou confusos. Mas é assim mesmo, na Índia a gente nunca sabe o que pode e o que não pode fazer, rs!

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Conforme a minha pesquisa, não existem imagens eróticas no interior dos templos e realmente não lembro de ter visto nada “picante”.

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Nesse dia, o sol estava fritando as cabeças com temperaturas em torno dos 43 graus. Por isso, é sempre bom levar um lenço no pescoço ou na bolsa de mão. Ele pode ser usado para proteger o rosto da poluição, para entrar nos templos onde seu uso é obrigatório ou para aliviar o calor.

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Detalhes que me encantaram

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O Marcelo sempre leva algumas páginas do guia LONELY PLANET nas nossas viagens para que possamos aprender um pouco sobre a história dos locais que visitamos, registrar curiosidades e obter informações úteis e práticas. Nesse caso, estávamos procurando uma escultura que provava que “o cavalo pode ser o melhor amigo do homem”. Encontramos animais diversos, mas nada do tal cavalo, até que…

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…apareceu na nossa frente uma das esculturas mais fotografadas do conjunto de templos. Reparem na figura com as mãos no rosto lá atrás… ele provavelmente está envergonhado pelo comportamento de seus amiguinhos, rs!

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Quando terminamos a visita, avistamos um templo menor do lado de fora que tinha uma escadaria cuja vista dava para a parte superior do complexo de templos. Foi de lá que tirei a sequência de fotos acima e confirmei que os entalhes vão até o topo das construções… incrível!!!!

O calor estava no auge e as pessoas sumiram das ruas na hora do almoço. Embora eu deteste altas temperaturas, os vendedores, guias e picaretas em geral fugiam do sol e nos deixavam em paz. Por isso, passei a torcer pelos 45 graus todos os dias, rs! Mas não posso reclamar disso em Khajuraho porque fomos abordados poucas vezes e eu até tomei coragem para perguntar o preço de algumas roupas numa loja, na qual o vendedor foi muito atencioso e nada insistente.

Khajuraho é uma cidade pequena para os padrões indianos porque tem somente 10 mil habitantes. Não vimos trânsito pesado, nem ouvimos o barulho infernal das buzinas. É um lugar bem tranquilo. Antes de seguir para as próximas atrações, decidimos espairecer e tomar algumas cervejas no RAJA CAFÉ, o mesmo lugar onde jantamos mais tarde.

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Negociamos com um motorista de tuk-tuk um passeio até os templos do lado leste. Alguns eram bem interessantes, outros nem tanto. O fato é que começamos a visita a Khajuraho pelas construções mais impressionantes e por isso nada do que vimos depois teve o mesmo impacto.

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Na área dos templos jainistas de Adinath encontramos outros turistas indianos e rolou mais uma sessão de fotos acompanhada de um rápido bate-papo.

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Templos jainistas de Adinath

No fim da tarde, fomos tomar algumas cervejas com um rapaz chileno que conhecemos no trem e estava dando uma volta ao mundo. Do terraço do restaurante BELLA ITALIA, vimos a cidade anoitecer e ganhar vida. O tempo mais fresco trouxe o som das buzinas e algum trânsito, mas nada comparado ao das grandes metrópoles indianas.

Depois do jantar no RAJA CAFÉ, voltaos ao hotel para descansar um pouco antes de pegar o trem para Varanasi.

Ah, quase esqueci de contar um episódio de malandragem local, sobre a qual já havíamos lido num relato de viagem de um brasileiro. O rapaz que trabalha na recepção do hotel e que também dizia ser massagista, nos abordou para oferecer seus serviços e, diante da nossa recusa, disse que também trabalhava como professor numa escola local. Nosso desconfiômetro disparou nessa hora e demos um jeito de nos desvencilhar da conversa. Explico o motivo: no relato do brasileiro, ele dizia ter sido abordado pelo professor de uma escola local bem humilde e aceitou o convite para visitá-la. Chegando lá, ficou penalizado com a situação dos alunos e aceitou fazer uma contribuição para a instituição. Quando viu o livro de assinaturas com os nomes dos doadores e os respectivos valores oferecidos, ele quase caiu pra trás… pelo que entendi, as contribuições eram de milhares de dólares e isso não parecia real. Cheirinho de picaretagem no ar… Ele disse que ficou meio constrangido de contribuir com um valor “compatível com a realidade brasileira”, mas não tinha condições de se equiparar aos outros doadores.

Como mencionei nos relatos anteriores sobre a nossa viagem à Índia, é praticamente impossível escapar de todas as armadilhas que aparecem, mas é perfeitamente possível não se deixar intimidar e recusar a fazer doações se você não se sentir à vontade. No caso da escola, eu acho super válido ajudar uma instituição carente, o problema é que a probabilidade de que boa parte do seu dinheiro vá parar no bolso dos “intermediários” é enorme…

Um super beijo pra todos com votos de uma ótima semana!!!!

*Fontes:
http://www.mochileiros.com/india-e-nepal-20-dias-t99794-15.html#p989110
http://pt.wikipedia.org/wiki/Conjunto_de_Templos_de_Khajuraho
http://www.360meridianos.com/2012/04/os-templos-do-kama-sutra.html
http://neotantra.com/artigos-tantra/36/os-templos-eroticos-de-khajuraho
http://viajeaqui.abril.com.br/cidades/india-khajuraho

Bonfa-ass

7 comentários:

Geltha Dubon disse... [Responder comentário]

Maravilhosas fotos,Kátia.
=Quanto à escola,minha amiga Ieda,q é daqui de Bh e mora na índia a maior parte do tempo,cuida de uma escola e coloca praticamente todo o dinheiro dela e com nossa ajuda faz milagre pelas crianças.
O blog dela é:Os caminhos por onde andei
(oquevivipelomundo.blogspot.com.br)
Qdo vc puder,dê uma passadinha por lá.
bjs

Katia Bonfadini disse... [Responder comentário]

@Geltha DubonGeltha, super obrigada!!!! O melhor a fazer antes de doar algo na índia ou fazer um curso porlá é justamente pesquisar bastante e selecionar uma instituição idônea, como essa da sua amiga. Acho que vc já havia me falado sobre ela e eu já entrei no blog para conhecer o belo trabalho que ela desenvolve! Um super beijo!!!!

Cintia Fumagalli disse... [Responder comentário]

Oi Kátia :)

Sobre as esculturas me deu uma curiosidade de saber, elas são entalhadas todas em pedra mas, são em partes? Assim, pedra colocada sobre pedra e formando o conjunto ou, em um pedra são entalhadas várias esculturas, como uma peça única?
Não sei se fui bem clara ...rs

Agora, sobre o tal cavalo =/
ver coisas como essa só faz me chatear, o ser humano é tosco desde os primórdios !
Incrível como, até hoje a 'cena ' se repete, pessoas praticando zoofilia , depois quando eu desejo à todos que realizam tal pratica que morram de câncrio ou de brucella canis , a ruim da história sou eu.
Para minha concepção, isso é muita ignorância.
Enfim ...

beijo e boa semana :)

Katia Bonfadini disse... [Responder comentário]

@Cintia FumagalliOi, Cintia! Que interessante a sua pergunta! Eu não li sobre isso em lugar nenhum. Mas acho que algumas partes foram encaixadas porque são muuuitas esculturas e detalhes. Os templos devem ter sido montados em partes, vou pesquisar porque também fiquei curiosa! Pois é, a questão da zoofilia é bizarra, ainda mais se tratando de um templo religioso, né? Bem curioso... Um beijão!!!!

Bell disse... [Responder comentário]

oi Ka

Impressionante o templo, muitos detalhes e é enorme.

bjokas =)

Katia Bonfadini disse... [Responder comentário]

@BellFiquei impressionada mesmo, Bell! Os detalhes são extremamente complexos, é de tirar o fôlego! Beijão!

Lívia Carolina disse... [Responder comentário]

Que lugar lindo, Kátia!
As fotos ficaram lindas - a do Marcelo com os braços abertos é muito boa!

Adoro "viajar" com vocês!

Bjos

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