quinta-feira, 11 de maio de 2017

Cuidado com a escolha de temas

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Veja esta imagem abaixo e responda: o que há de errado com os personagens mostrados?

Coluna 16A

Frida do Doodlink Studio, Bonequinha de luxo da LD e soldadinho da Prettygrafik – todas as imagens compradas com licença de uso.

Não há nada de errado com as figuras. São representações bem bonitinhas de personagens que conhecemos bem: Frida Kahlo, Bonequinha de luxo e soldado inglês. O problema, se é que posso dizer assim, está no uso que muita gente faz deles em festas infantis.

Vou começar pelo soldado. Na verdade, não há nada grave com o uso de soldadinhos tipicamente ingleses em aniversários de crianças. Londres é um tema bem bacana, com muitas possibilidades e que pode render uma festa linda. A questão é que, na maioria dos casos, dizem que o tema é soldadinho de chumbo. Experimenta procurar no Google por “festa soldadinho de chumbo” e você verá centenas de festas nas cores azul, vermelha e branca e repleta de elementos londrinos.

O verdadeiro soldadinho de chumbo, do conto de fadas escrito em 1838 pelo dinamarquês Hans Christian Andersen, tem uma perna só. Na história, o brinquedo se apaixona por uma bailarina de papel. Um gênio do mal (gênio do mal! Anote isso!) o ameaça. Ele cai da janela, meninos o colocam em um barquinho de papel e o lançam na sarjeta (atitude superbacana, né? Anote isso também.). O barquinho cai no esgoto, depois em um rio onde então é engolido por um peixe (porque ser resgatado por algum pescador seria bom demais). Pescado, o peixe foi parar na mesma casa onde o soldadinho morava. Ele volta para perto da bailarina, mas cai no fogo e se derrete. A bailarina também é derrubada e consumida pelas chamas. Fim.

Leia as anotações feitas no parágrafo acima. Tem algo de fofo? Percebeu que o verdadeiro soldadinho de chumbo nada tem a ver com Londres, com soldados ingleses, com ícones londrinos? E percebeu que a história é pesada e triste? Tudo bem, é só um nome, mas acho que conhecimento não ocupa espaço e se a gente pode dar o nome certo às coisas, melhor. Ainda mais quando o nome errado tem uma carga tão negativa.

Coluna 16B

Capas de edições com a história do soldadinho de chumbo

Agora, vamos falar das duas meninas da imagem lá de cima. Frida Kahlo tem sido bastante usada como tema de festas infantis. No carnaval, vi muitas menininhas fantasiadas como a pintora mexicana de sobrancelhas marcantes. Artista de grande talento, Frida fez parte do partido comunista mexicano e teve um primeiro casamento bastante tumultuado, recheado de casos extraconjugais. O segundo casamento foi marcado por brigas violentas. Tentou o suicídio diversas vezes e não se descarta que sua morte tenha sido por overdose de remédios, ainda que acidental, já que anotações em seu diário sugerem que ela tenha tirado a própria vida.

Frida é considerada um ícone do feminismo – e eu confesso minha ignorância por não saber exatamente o motivo. Mas, com toda a biografia relatada acima, será mesmo que a personagem Frida Kahlo é um bom tema para um aniversário infantil? Será mesmo tão legal vestir uma menininha tal qual uma pessoa com um histórico desses? Não desmereço de forma alguma a pintora e seu trabalho, mas é impossível desassociar a artista de sua história de vida.

Coluna 16C

À esquerda, Frida em foto feita por seu pai em 1926; à direita, com o primeiro marido, Diego Rivera, em 1932. Fotos da Wikipedia.

Por último, vamos falar da chamada Bonequinha de luxo, que na verdade é o nome em português do filme de 1961 Breakfast at Tiffany’s. Baseado em livro homônimo de Truman Capote, conta a história de Holly Golightly, brilhantemente interpretada por Audrey Hepburn. Holly é uma acompanhante de luxo, que sonha em se casar com um homem rico. Na busca pelo sonho de se tornar atriz, muda-se para Nova York e passa a ser sustentada por um mafioso. Holly também reluta em se entregar a um amor de verdade pois isso não condiz com seu objetivo que é apenas ficar rica. Aparece inúmeras vezes com uma piteira na mão.

Por mais bonitinho que sejam os desenhos que representam a bonequinha, por mais linda que fique uma festa em tons de azul Tiffany e preto, a bonequinha de luxo definitivamente não deve ser inspiração para uma menina. Até acho legal para uma festa de adulta, entra aí um tom de brincadeira, mas já é uma escolha bem mais consciente. Para criança, não. E, sim, eu já vi festa de UM ANO com esse tema. Uma clara demonstração de desconhecimento total da história.

Coluna 16D

Imagens do filme Breakfast at Tiffany’s – Bonequinha de luxo

Fica claro que não dá para escolher um tema apenas pelo visual, especialmente quando envolve personagens. Conhecer sua história, saber o que ele representa, entender o que significa e a ideia que passa é primordial para fazer uma escolha acertada, que não traga uma carga tão adulta e pesada por trás.

Patricia Haddad

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13 comentários:

Thamires disse... [Responder comentário]

Adorei o post.
Eu, como assídua leitora e fã de contos, fico bastante incomodada com umas associações que os pais fazem ao escolher festas para os filhos sem conhecer a história. Um tema muito comum agora é o Pequeno Principe, daí colocam a roupa do Pequeno Principe no menino. Mas, a decoração tem coroas, carruagens, os convites são convocações reais...ou seja, essas pessoas nunca nem leram o livro. rs

Patricia Haddad disse... [Responder comentário]

Que bom que gostou, Thamires. E você tem razão. Uma coisa é festa com tema realeza, ou apenas príncipe. Aí cabe tudo isso que você mencionou. Pequeno Príncipe, o do Saint-Exupery, não!

ANA PAULA FERREIRA DE OLIVEIRA disse... [Responder comentário]

Concordo...
Meu filho de 8 anos sempre participa da escolha do tema...fico louca porque sempre são temas BB ada fáceis de encontrar,o último foi zootopia,e nos divertimos fazendo todas os enfeites, que acabam sendo exclusivos!

ANA PAULA FERREIRA DE OLIVEIRA disse... [Responder comentário]

Concordo!!!
Meu filho sempre participa da escolha do tema.Eu fico louca, porque sempre são temas bem diferentes,como zootopia,no ano passado!!!Mas nos divertimos e no final vale muito a pena,pois a decoração acaba sendo exclusiva e a cara dele!!!

Fernanda Furtado disse... [Responder comentário]

Patrícia, amei o post!!!! Um assunto bem relevante.
Hoje em dia as pessoas andam bem preguiçosas no quesito leitura (mesmo que de um pequeno anúncio) e, acredito, que a maioria desconheça totalmente o contexto por trás dessas e de muitas outras imagens por aí. Também sou uma leitora voraz de histórias, especialmente as infantis, que eu adoro e é interessante mesmo que muitos pais desconheçam o significado daquilo que promovem e se esqueçam do poder que a imagem exerce sobre as pessoas.
Abraços!

Márcia Carvalho de Souza disse... [Responder comentário]

Ótima postagem! Vale ser publicada no Instagram, Facebook e outros para tentar esclarecer melhor as pessoas!

Patricia Haddad disse... [Responder comentário]

Meninas, obrigadas pelas palavras! Fico feliz que tenham compreendido o intuito do texto. Não se pode agradar a todos e sei que muita gente hoje em dia lê superficialmente, não interpreta e, mesmo assim, se acha apta a criticar. É a vida. Não podemos fazer nada, infelizmente.

Marlene Casagrande disse... [Responder comentário]

Ótimo post, tão verdadeiro e esclarecedor... adoro festa infantil, a caseira,aquela que a gente faz tudo pensado pra família, pros amigos e claro,ao gosto do aniversariante!
Festa onde a criança ainda não sabe escolher deve ser neutra, se possível sem personagens, pq quando ela crescer vai escolher e pode até querer o mesmo!
Acabei de ver que uma conhecida fez a festa de 10 anos da filha de Bonequinha de Luxo... afff...

Joana Alves Rios disse... [Responder comentário]

Oi Patricia , na verdade é você quem não esta entendendo minha contra-argumentação. Eu entendi muito bem o seu texto, mas não concordo e usei como exemplo a origem das histórias das Princesas. Infelizmente estava no celular e não consegui desenvolver minha ideia direito. Vou concentrar o meu ponto de vista no Soldadinho de Chumbo: você foi buscar um dos contos originais, apesar da possibilidade de usar o Soldado de O Quebra Nozes, e descobriu que a história não tem um final feliz e, por conta disso, não passa uma boa mensagem para uma festa infantil. Mas Patricia, você sabe de onde surgiu a história da Bela Adormecida? Surgiu de uma história chamada “Sol, Lua e Talia” de Giambattista Basile. Nele Talia cai em um sono profundo após uma farpa entrar em sua unha. Sua família, achando que ela está morta, mas sem coragem para enterrá-la, a deixa em uma propriedade rural onde um rei a encontra e, encantado com sua beleza, a estupra. Após nove meses, Talia dá a luz à gêmeos e um deles, com fome, chupa o dedo da mãe, retirando a farpa e então ela desperta. O Rei reencontra-os, mas ele é casado e a Rainha, enciumada, tenta cozinhar as crianças e matar Talia, mas é impedida e morta pelo Rei.
Acredito que a história é tão chocante que os Grimm e Perrault a modificaram depois, até chegarmos na versão fofa da Disney.
Veja bem, eu não quero acabar com as festas de Bela Adormecida, nem com as da Chapeuzinho Vermelho (que morre em quase todas as versões) ou de qualquer outra princesa (acredite, a maioria delas surgiu de uma história bizarra na idade média). Eu estou usando o seu próprio argumento - “não dá para escolher um tema apenas pelo visual, especialmente quando envolve personagens. Conhecer sua história, saber o que ele representa, entender o que significa e a ideia que passa é primordial para fazer uma escolha acertada, que não traga uma carga tão adulta e pesada por trás” - para dizer que é falho, que se pode escolher o clima do Soldadinho do Quebra Nozes e não do Andersen, por exemplo. Que pode trazer sim a alegria do colorido das obras da Frida. É uma questão de escolha, por qual Bela Adormecida você vai optar?

Patricia Haddad disse... [Responder comentário]

Joana, o soldado do Quebra Nozes é OUTRO soldado, não é o soldadinho de chumbo (estanho no original). As pessoas fazem festa de soldadinho inglês, ou melhor, festas com temática Londres, usam o soldadinho inglês e chamam de soldadinho de chumbo, que é o que mencionei no post. De resto, já respondi no post lá no face onde você postou este mesmo comentário.

Carla Cristina Alves disse... [Responder comentário]

Adorei o post, excelente reflexão acerca disso. Desde que comecei a ler o blog da Bonfa, muito do aspecto da profissão dela tem engrandecido meus conhecimentos, tanto que hoje, como uma "crafter" autodidata, tenho me orientado muito no que leio aqui. Como pedagoga que sou, posso dizer que os contos infantis antigos tinham o intuito de, na idade média, serem usados para alertar as crianças das maldades do mundo, não tinham nada de encantado, e geralmente tinham finais trágicos. E como já mencionado, os irmãos Grimm e o Charles Perrault deram uma amenizada, e eles foram sendo adaptados para a época, como o resultado que temos hoje, bem diferente dos contos originais. Aliás, as personagens ai citadas são de situações e histórias adultas, que também com o tempo foram idealizadas, e por fim superficializadas e infantilizadas simplesmente pelo seu aspecto estético, tanto que não é difícil vermos pessoas nas ruas com camisetas de personagens os quais nem sabem o que significa. Obrigada pela reflexão proporcionada.

Katia Bonfadini disse... [Responder comentário]

@Carla Cristina Alves Carla, super obrigada pelo carinho, fiquei muito feliz com seu comentário sobre o blog e também sobre o tema do post da Patricia. Seja sempre muito bem-vinda! Beijão!

Patricia Haddad disse... [Responder comentário]

@Carla Cristina Alves

Olá, Carla! Muito obrigada pelo seu comentário. Que bom que há pessoas como você (e outras, inclusive nos comentários acima) que entenderam o propósito do post. Infelizmente, vivemos tempos difíceis; tempos de intolerância, de ignorância (no real sentido da palavra), de preguiça. As pessoas leem, mas não compreendem, e simplesmente atacam ideias e pessoas. Aconteceu comigo e com esse post. Particularmente, como ex-professora e comunicadora (sou jornalista, mas não exerço mais essas profissões), me entristece muito ver o quanto as pessoas hoje não querem entender, não querem debater, querem apenas atacar. Discordar é preciso, mas desde que com argumentos sólidos e embasados. Compreender e interpretar um texto é algo primordial para mim, mas tem sido deixado de lado por muitos. Mais uma vez, te agradeço pelas palavras.

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